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quarta-feira, 10 de junho de 2015

#2 - Os valores do Parkour

Querido diário, resolvi escrever hoje pois cada dia mais torna-se comum ficar diante da seguinte situação quando debate-se com um traceur:

“Zé dus pulo – ‘Parkour é minha filosofia de vida!’; ‘Parkour é meu lifestyle!’; ‘Parkour é a minha vida!’.”


De fato, este é um argumento que deixa claro a intenção de se ilustrar que a prática significa mais que simplesmente saltar de um lado para o outro apenas por lazer. Porém é tangível a falta de base de muitos desses mesmos praticantes para sustentar o Parkour enquanto uma filosofia de vida, ou até mesmo conhecimento sobre os valores essenciais da prática. Diga-se de passagem, que em uma atividade onde lidamos com apropriação e ressignificação de locais, geralmente públicos, faz-se necessária uma linha filosófica digna a gerar um ‘código de ética traceur’ de forma a nortear um padrão de atitudes saudável pra consigo mesmo e com a sociedade. Mas antes de continuar vou deixar claro que não é o objetivo deste texto criar, induzir ou limitar alguma espécie de ’10 mandamentos do Parkour’, e sim apenas discutir alguns do valores que acredito serem essenciais para a mentalidade de qualquer pessoa que deseja se tornar um(a) traceur/traceuse.


A leitura a seguir é bastante extensa, então podem dividir em 2 ou 3 partes, ler metade em um dia e a outra metade no outro, ou ir lendo de pouco em pouco... como preferirem, mas não desistam dela, pois acredito que aprenderão algo bacana no decorrer do post.

O conceito de filosofia é bastante amplo e varia de acordo com a época e filósofo, mas usaremos aqui apenas conceitos mais gerais pra facilitar a compreensão da linha que será criada. Acho interessante antes de continuar, que vocês leiam o absolutamente formidável texto “Parkour, filosofia e ética”, do já citado Bruno ‘Rachacuca’ Peixoto. É sem dúvida nenhuma o melhor texto sobre o assunto que já li, e também, o texto no qual me baseei e inspirei para escrever este post (vocês podem fazer o download do texto inteiro neste link, do falecido pulodogato.com – sdds ç.ç - ).

Filosofia no sentido mais ‘bruto’ quer dizer ‘amor pela sabedoria’ e Pitágoras diz que esse amor é experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância. Nesse sentido, a prática filosófica traz a ideia do exercício da própria razão. Da capacidade de se pensar para aquilo que está além do óbvio (Para uma revisão mais aprofundada sobre o tema da filosofia recomendo este texto). Acredito que a partir daí já conseguimos visualizar a importância do pensar filosófico para o parkour, afinal, nós não temos que criar novos caminhos? Explorar o ambiente de diferentes formas? Pensar para aquilo que está além do senso comum? Devemos constantemente exercitar a capacidade de raciocínio, pois dessa forma, seremos traceurs e pessoas muito mais completas.

Ao pensar no porquê das coisas, passamos a enxergar o parkour como algo muito mais profundo do que simplesmente movimentos, performances acrobáticas ou métodos ginásticos de fortalecimento. Vemos uma disciplina que trás consigo essências e valores que servem para tornar o praticante alguém digno, honrado. Apesar de negligenciados por muitos, o parkour traz consigo valores que são extremamente importantes para a prática continuar a ser o que é, mesmo que ela mude seus padrões, moda ou forma de ser praticada. Os valores serão o que manterão a prática completa. Sem eles, somos apenas pessoas pulando, escalando, desrespeitando a ‘ordem natural’ das coisas sem nenhum propósito, e realmente não haveria como dizer pras pessoas que nós não treinamos para fugir da polícia ou que parkour é muito mais que simples saltos mortais feitos com um cenário urbano de fundo.

Valores são os princípios que tangem principalmente a moral ou ética que determinada cultura julga boa ou importante (válido frisar que moral e ética não são a mesma coisa, mas não vou diferenciar os dois neste texto). Os valores são o que influenciam nossas prioridades e forma de agir ou de se comportar. Por exemplo: Trapacear em um jogo, roubar, trair ou cometer algum tipo de covardia é considerado antiético ou imoral pois vão contra os valores que a sociedade considera certo. Importante frisar que nem sempre o que é imoral é ilegal, uma pessoa que trai comete um ato imoral, mas não ilegal. Em suma, a ética e moral tem uma relação direta com os valores considerados ideais. Esta reflexão sobre os conceitos de moral e ética são imprescindíveis para um indivíduo que busca uma vida em harmonia com atitudes boas, porém são temas deveras extensos para dissertar por aqui, então vou deixar apenas essa introdução extremamente resumida no post. Mas também deixarei aqui uma ótima leitura para os interessados em se aprofundar no tema neste link.
Contextualizados com os termos e significados, podemos afunilar o tema para o nosso objetivo, parkour (ufa!).




O Parkour, como já discutido neste post, é uma prática que nasceu de diversas influências e, obviamente, trouxe consigo alguns valores dessas outras práticas, como o Método Natural, o parcours Du combattant e artes marciais. Eu vou citar aqui os que eu realmente acredito ser relevante para todas as pessoas que desejam chamar a si mesmo de traceur ou traceuse. Relembrando que não é meu intuito limitar, restringir ou impor os meus valores, e sim fazer uma correspondência (embora subjetiva) de tudo que aprendi nos meus anos de treino e estudo, tentando respeitar ao máximo a visão dos criadores. Enfim, vamos lá:

Humildade: Virtude caracterizada pela consciência das próprias limitações; modéstia, simplicidade. Humildade é assumir, seus direitos e obrigações, erros e culpas  sem resistir,agir diferente disto, é uma arrogância e uma negação da sua origem. (Significados.com)
Característica de pessoas francas, que aceitam a verdade e que têm senso de realidade apurado. Reconhecem seus erros e acertos com a mesma naturalidade.Não subestimam, nem supervalorizam fatos, pessoas, coisas ou a si mesmos! (Dicionárioinformal.com)

Apesar de não ser bem um valor, citei essa virtude pois é imprescindível para um/uma traceur/traceuse que tenha conhecimento de suas próprias limitações, para dessa forma dirigir um treino consciente. Além disso o “saber-se imperfeito” é fundamental para entendermos que por melhores ou mais sábios que sejamos, nós nunca iremos saber e conhecer tudo. Aceitar e entender que não somos melhores e nem piores que ninguém é algo digníssimo e importantíssimo para que possamos sempre nos tornar melhor.

“Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o Céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe.” – Leonardo da Vinci

Altruísmo: Tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro e que, não obstante sua atuação espontânea, deve ser aprimorada pela educação positivista, evitando-se assim a ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo. (Comte 1798-1857)

Altruísmo é aquilo que diz respeito ao espírito e prontidão de ajudar ao próximo. O traceur/traceuse é alguém que deve estar sempre apto a oferecer seu apoio, seja em um treino ou uma situação corriqueira como ajudar a empurrar um carro ou ajudar uma senhora com as compras. De nada adianta sermos fortes, ágeis e capazes se não formos úteis.

Autocontrole: controle sobre si mesmo; autodomínio, comedimento, equilíbrio. (Wikipédia.com)

No parkour isso é extremamente necessário. Ter controle sobre seus impulsos, seus atos e emoções é importante para uma prática equilibrada. Quem já viu um pico maravilhoso que era uma propriedade particular, ou foi tentar fazer algum movimento só porque tinha um/uma gatinho/gatinha passando, ou sente vontade de se jogar igual um louco só porque tinha uma gopro apontada na sua direção deveria saber o quão perigoso isso é. Escolher quando não se movimentar é talvez uma das partes mais importantes da prática.

“O homem que não sabe dominar os seus instintos, é sempre escravo daqueles que se propõem satisfazê-los.” – Gustave Le Bom

“Na condução das questões humanas não existe lei melhor do que o autocontrole.” – Lao Tse

Autoconhecimento: conhecimento de si mesmo, das próprias características, sentimentos, inclinações etc. (Google.com)

Provavelmente uma das coisas mais importantes e também um dos objetivos mais complexos e difíceis no parkour. A prática de conhecer a si próprio é algo fundamental para sua própria melhora enquanto pessoa. Conhecer seus medos, limites, capacidades, potencial, pontos fortes e fracos é algo que sem dúvida alguma vai te proporcionar uma visão muito mais ampla de si mesmo e de tudo o que te rodeia.

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.” – Sócrates

Respeito: Sentimento positivo que significa ação ou efeito de respeitar, apreço, consideração.
Com respeito não quero dizer apenas o respeito ao próximo, mas também o respeito próprio e o ambiente que te rodeia. Funciona como um tripé: Respeito para com o próximo, autorrespeito e respeito ambiental. Somos animais sociais, então devemos sempre prezar por uma boa relação com os outros praticantes, com os cidadãos que passam por nós enquanto treinamos, com as autoridades policiais e até com os animais do local, para que possamos sempre aproveitar uma boa convivência. O autorrespeito é fundamental pois devemos sempre estar atentos a nossa integridade e a nossos medos. Não sentir medo não significa coragem, significa imprudência. O bom traceur busca sempre ouvir ao seu próprio corpo e saber quando se puxar e quando parar. Respeitar o ambiente fecha o tripé, pois se nós nos utilizamos do ambiente para treinar, nada mais justo que deixa-lo como encontramos. Prezar pela limpeza e integridade do pico é fundamental para podermos continuar treinando ali.

Coragem: Bravura; senso de moral intenso diante dos riscos ou do perigo.

Confiança; força espiritual para ultrapassar uma circunstância difícil.

Perseverança; capacidade de enfrentar algo moralmente árduo.

Hombridade; característica da pessoa de bom caráter. (Dicio.com.br)

A coragem é algo fundamental para qualquer pessoa. No parkour tão importante quanto a capacidade de se movimentar é a capacidade de se sair da zona de conforto. É comum as pessoas acharem que praticantes de parkour não tem medo, e isso é o maior equívoco do mundo. O medo e o bom senso são as maiores ferramentas de segurança do traceur. Mario Sergio Cortella já disse muito bem, “A coragem não é a ausência do medo, é a capacidade de se enfrentar o medo”.

“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.” – Willian Shakespeare.

Resiliência: conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico. (Wikipédia)

Capacidade que um indivíduo ou uma população apresenta, após momento de adversidade, conseguindo se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação. (Dicionário informal)

A resiliência é basicamente o diferencial entre alguém com uma mente preparada para uma situação adversa e alguém que vive na sua concha de comodismo. Um traceur ou traceuse deve extrapolar isto para todas as áreas de sua vida. A mesma energia utilizada para se sobressair em um percurso de obstáculos físicos deve ser a mesma energia utilizada para lidar com problemas e situações ruins em sua vida. Esta capacidade é bem subjulgada atualmente e provavelmente represente grande parte do que alguém que treine para se tornar forte (no sentido mais amplo da palavra) almeje.

Insatisfação Positiva: Cortella (aaaa como eu amo esse ser gordo e barbudo) chama de insatisfação positiva aquele sentimento que sempre te mostra que ainda temos algo a melhorar. Aquilo que motiva a nossa ambição, que nos faz sempre querer mais e melhor. Essa busca constante na melhora é o que motiva o/a traceur/traceuse a sempre buscar uma nova forma de ser melhor que ontem. Alguma dúvida do quanto isso é importante para nossa vida?
“Perfeição é a busca constante da melhora”

Estes valores e virtudes juntos constituem uma boa referência do que a comunidade, de maneira geral, considera posturas e características corretas de um bom praticante e são as que eu, particularmente, considero essenciais de serem colocadas em pauta para um bom desenvolvimento da prática em seu sentido mais amplo. Obviamente, como eu disse antes, essa lista não é uma lei e em absoluto representam a totalidade de valores da prática. São apenas alguns valores que podem servir de parâmetro para se adquirir uma postura que gere um exemplo e convivência saudável dentro da comunidade do parkour, e da sociedade como um todo.

Poderia ainda falar sobre uma infinidade de características que complementam um bom praticante, como autonomia, foco, determinação, disciplina, confiança, paciência, persistência, criatividade... mas além de esse texto ficar ainda maior, acredito que entraria em méritos tão intrapessoais que esse post ficaria parecendo mais um artigo de auto ajuda do que uma discussão sobre valores.

 Entretanto, eu não poderia de maneira alguma finalizar um texto sobre valores e a essência da prática sem citar os lemas mais conhecidos pelos traceurs e traceuses. Embora trazidos do método natural, esses lemas trazem consigo uma essência e uma crítica tão fortes que mesmo sendo pontuações do início século passado, ainda são discussões bem pertinentes aos modelos atuais de Educação Física. Mas como o estudo da obra de Hebérts é deveras extenso, aconselho que pesquisem por conta própria para aprofundarem-se sobre o assunto. Porém deixarei abaixo boas referências de estudo para os interessados. Então de uma forma bem resumida, pois não quero prolongar-me muito mais

“Ser Forte para Ser Útil”
Hébert defende em sua obra que o corpo humano, mais do que forte, deve ser funcional. Segundo ele você deve estar apto a muito mais do que simplesmente levantar cargas repetidas vezes para melhorar a estética corporal. Você deve ser forte sim para levantar e carregar cargas assim como arremessá-las, mas também deve ser capaz de andar, correr, escalar, quadrupejar, equilibrar-se sobre diferentes superfícies, nadar, saltar e defender-se. Deste ponto de vista, treinar unicamente pela estética torna-se algo fútil, sem utilidade.
O corpo do traceur deve ser capaz de realizar todas as chamadas “10 habilidades naturais” citadas por Hébert, em função de desenvolver seu corpo de forma funcional e útil. Muito mais do que simplesmente preparar o corpo, Hébert diz que deve-se fomentar um forte senso moral de altruísmo (que já citamos anteriormente). Dessa forma você se torna “forte” e “útil”.

Resumidamente ‘Ser forte pra ser útil’ quer dizer: De que adianta você ter um corpo bonito se ele não é funcional? E de que adianta ser forte se você não usa essa força para ajudar ao próximo? Basicamente esse lema, dentro do parkour, questiona se o preparo que ganhou está sendo utilizado para fins egoístas ou fúteis.
O Beto Brandão, criador de conteúdo do ‘Papo de homem’ e do ‘De cima do muro’ fala muito bem sobre isto neste link e neste link

“Ser e Durar”

Este lema defende justamente o respeito para com o próprio corpo (que já foi citado acima).  A prática do parkour pode ser uma prática perigosa se for realizada de maneira imprudente e negligente, então é sempre necessário frisar valores que defendam a integridade física e mental do praticante. Dessa forma devemos ‘usar e não abusar’ de nossos corpos, afinal nosso corpo é o principal veículo para a ultrapassagem de obstáculos. Um carro quebrado não leva ninguém a lugar nenhum. Então é necessário sempre lembrar que devemos cuidar de nossos corpos para podermos ser ‘úteis’ por muitos anos. Ninguém quer treinar apenas 2 anos, se machucar e passar a vida toda com dores por um segundo de inconsequência ou despreparo. Este lema existe para lembrarmos que devemos ‘durar’ na prática. Essa responsabilidade de ‘cuidar de si próprio’ para treinar sempre é importantíssima. Devemos ser cautelosos, respeitar nossos corpos para que ele possa ‘durar’ mais. Claro que isso não tem a ver com ‘viver por mais tempo’, e sim com prolongar a nossa vida útil dentro do parkour. Não adianta se jogar para um drop de 5 metros hoje, se amanhã você não conseguir andar. Então acredito que ‘Ser e Durar’ seja muito bem representado por um estado de sustentabilidade com o próprio corpo, ou seja, treinar hoje, para poder continuar treinando sempre. Para isso precisamos de cautela, bom senso e preparo. Como diz Cortella: “O corpo é uma coisa tão legal que se cuidarmos dele direitinho, ele dura a vida toda”.

O Eltiene Soares elaborou uma pesquisa interessantíssima sobre o tema e publicou em forma de artigo. É uma boa leitura, quem se interessar pode acessá-la neste link.

Nunca é demais reforçar que eu não sou o dono da verdade e quero que se sintam livres pra criticar e debater sobre tudo o que foi exposto, afinal, eu também erro.

Valores são algo que já existem em uma comunidade, independente de você conhecê-los ou não, de pratica-los ou não. Os valores representam os ideais que a sociedade considera corretos, e isso já faz parte da educação de uma pessoa desde que ela nasce. O objetivo do texto não foi querer dizer que se você não quer seguir esses valores, você não é um traceur. Quis dizer que se quiser se aventurar no parkour é interessante que conheça os valores que toda comunidade preza para gerar uma boa relação com todos.

E, FINALMENTE, chegamos ao final desta postagem, espero que isso ajude aos novos e antigos praticantes de alguma forma, seja com um novo aprendizado, seja pelo estímulo de relembrar e refletir sobre esses aspectos. A prática de bons valores sempre ajudará a fazer com que o parkour e seus adeptos cresçam e se enobreçam cada vez mais. Sempre existirão traceurs hipócritas, falsos profetas que se baseiam numa ideologia que não seguem para vender uma pessoa que não são com valores que não respeitam, mas desejo a todos sabedoria para não seguirem tal exemplo.

Qualquer dúvida, crítica ou comentário, por favor sintam-se a vontade para deixar seu ponto de vista abaixo. Esse ambiente é nosso.

Bons treinos.

Atenciosamente, Um Traceur.


Agradecimentos especiais a Marina Neves, ao Duddu Rocha do DCM e a Millena Barbosa (Hyna) da Flowing pela ajuda com o Texto.

Referências:
http://www.significados.com.br/
http://www.dicionárioinformal.com.br/
http://www.dicio.com.br.br/


sexta-feira, 24 de abril de 2015

#1 - O Que é Parkour?

Querido diário, hoje irei começar o primeiro dia de postagens oficiais sobre o mundo do parkour na minha ótica e perspectiva.
Nada mais justo que começar essa caminhada refletindo e elucidando uma das perguntas mais frequentes que ouço das pessoas que não conhecem o que eu faço: “Afinal, o que é parkour?”.
Responder a essa pergunta é simples e ao mesmo tempo complexo, afinal, numa realidade onde a maioria dos vídeos (de parkour) que viralizam por aí mostram justamente o oposto do que pregam os valores da prática, mostrar para um leigo do que se trata a disciplina por trás da movimentação torna-se uma tarefa verdadeiramente desafiadora.
Para responder esta pergunta eu tentarei seguir uma linha que vá de acordo com as principais referências internacionais do parkour hoje, de modo a respeitar a visão dos próprios criadores e a abranger ao máximo toda a potencialidade que a prática desenvolveu com o tempo. Para isto, tentarei usar aqui o máximo de referências científicas relacionadas com o parkour, entrevistas com os criadores e parte da teoria passada durante o curso do A.D.A.P.T. Também, não usarei aqui nenhuma referência que não tenha plena confiança em seu conteúdo e veracidade.
A partir de agora muitos mitos que são repetidos por muito tempo pelos praticantes serão discutidos, e com certeza quem não faz ideia do que é parkour terá uma base mais aprofundada para começar a entender a disciplina, além de entender que a prática é muito mais complexa do que é mostrado na maior parte dos vídeos e filmes atualmente. Lembrando que o objetivo deste texto não é o de aprofundar-me na história do parkour, e sim focar na explicação do que se trata a atividade. Obviamente me basearei em alguns pontos específicos da linha do tempo da disciplina, mas sem atentar especificamente na história em si (isso ficará para um outro post). Sem mais delongas.
Julie Angels em sua tese de doutorado explica parkour/l’art du deplacement/freerunning como: “ Um método de treinamento físico e uma maneira particular de se pensar sobre movimentação e um mapeamento espacial criativo. É uma atividade física e mental que envolve apenas a utilização do corpo para superar obstáculos (físicos e mentais) em um percurso. Isso pode envolver correr, escalar, vaultear*, saltar, se equilibrar, ou qualquer outra forma física de se mover de um ponto a outro. Alguns simplificam isso afirmando se tratar de encontrar uma forma de sair de um ponto A e se chegar a um ponto B. É um método que envolve aprender a superar seus medos e limitações através do aprimoramento da relação entre corpo e mente e da coordenação de sua própria movimentação em qualquer terreno.”.

A definição de Angels é uma definição bastante completa da prática.
Quem é de fora do mundo do parkour provavelmente está se perguntando: “Mas l’art Du deplacement? Freerunning? WTF?”
Apesar de essa diferenciação na nomenclatura ser completamente inútil, é paradoxalmente necessário contextualizar os leigos sobre essas diferentes nomenclaturas e o que significam. Justamente porque neste ponto, muitos praticantes já devem estar tendo comichões e coçadinhas no corpo inteiro quando viram que Parkour/l’art Du deplacement/freeruning são explicados como a mesma coisa. Pois é, Parkour, l’art du deplacement e Freerunning são, na realidade, a mesma prática, aplicadas como expressões diferentes em situações e tempos diferentes. Já explicarei o porque.

Antes de avançar, é necessária uma pontuação. É comum associar a criação da prática unicamente ao Leito, digo, David Belle. Esse é o erro mais comum e provavelmente o mais crítico ao se interpretar a história do parkour. A atividade foi criada por um grupo de pessoas em conjunto que tiveram papéis importantíssimos para o desenvolvimento do que conhecemos hoje como Parkour. Essas pessoas formavam um grupo multiétnico que seria conhecido posteriormente como Yamakasi. Faziam parte dessa “formação original”: Châu Belle-Dinh, Williams Belle, David Belle, Guylain N'Guba-Boyeke, Malik Diouf, Sébastien Foucan, Yann Hnautra, Charles Perrière e Laurent Piemontesi.
A prática do parkour originalmente, não era chamada por um nome, se tratava basicamente de brincadeiras e desafios feitos pelo grupo de amigos nos subúrbios da capital Francesa, mais especificamente Evry, Sarcelles e Lisses. Com o tempo todas essas brincadeiras e desafios foram amadurecendo juntamente a seus envolvidos . Os treinos foram ganharam mais seriedade, profundidade, sentido e aos poucos aquilo foi tornando-se o método de treino e disciplina adotada por eles (para mais detalhes leiam o trabalho de Julie Angels na íntegra). Os garotos foram tornando-se jovens com uma capacidade de movimentação impressionante, sendo reconhecidos pelos moradores da região. Logo surgiu a oportunidade de aparecerem na televisão, mais especificamente em Stad  2 (um canal de televisão francês), com a oportunidade veio também a necessidade de dar ao que faziam um nome (até então a prática era chamada simplesmente por parcours , palavra francesa que quer dizer ‘percurso’). Foi então que em 1997, graças a oportunidade de aparecer na televisão, o grupo achou necessário uma forma de se referir a prática. Sebastien Foucan então sugeriu o nome “l’art Du deplacement”, ou em português, “arte do deslocamento”.  O grupo se identificou com o nome mas acabou se separando depois disso. David Belle, nesse mesmo ano, por uma questão de marketing adotou o nome “Parkour”, uma referência ao “parcours Du combatant” que era praticada por seu pai (e que discutiremos mais em um outro DDT) e um segundo nome para a mesma prática, fazendo desta uma marca, algo pelo qual Belle viria ser reconhecido como “dono” posteriormente e faria uma ligação direta com o que aprendera com seu pai, Raymond. Mais tarde, Sebastian Foucan durante o documentário “Jump London” no canal inglês Channel 4 trás a tona um terceiro nome para a mesma prática, Freerunning, nome este que desencadearia uma interpretação mundial totalmente distorcida da real intenção de Foucan. Seu objetivo era apenas mostrar ao público inglês a sua interpretação da mesma prática que sempre treinou e graças a sugestão de Guillame Pelletier, acreditou que um nome em inglês resultaria num maior apelo com o público britânico. Mas, como o ser humano é um bicho idiota, cada um interpretou as 3 nomenclaturas de uma forma, e criou-se uma errônea separação entre as práticas. Hoje sabe-se que elas representam a mesma essência e os mesmos valores e portanto são apenas nomenclaturas diferentes adotadas em contextos diferentes para se dirigir a mesma atividade. Nós costumamos utilizar o termo “Parkour” como mais aceito apenas para facilitar a comunicação. (O Bruno Peixoto, diretor da ParkourGenerations Brasil, explica muito melhor toda essa confusão neste vídeo)

A própria Julie Angels explora os conceitos de cada nomenclatura em seu trabalho e afirma não parecer haver distinção entre elas. “Eu irei me referir como parcours, l’art du deplacement, parkour e freerunning durante a tese dependendo do contexto histórico e das informações vindas dos informantes. [...] Eu acredito ser importante a distinção entre as respectivas disciplinas como isso aprofunda as identidades dos fundadores, mesmo que as práticas pareçam ser a mesma coisa para um leigo ou mesmo na perspectiva de um traceur” (Angels, J. Ciné Parkour:a cinematic and theoretical contribution to the understanding of the practiceof parkour. Página 15)
Angels claramente deixa claro neste parágrafo que a importância de diferenciar as práticas se justifica apenas para uma abordagem histórica, e que a diferenciação se dá pelas 'identidades dos criadores', ou seja, ego. Claro que cada um dos criadores queria a sua 'fatia do bolo', e gostariam de ser reconhecidos pela criação de algo, então, no primeiro desentendimento que aconteceu (no caso, por conta do nome) cada um pegou suas coisas e buscou reconhecimento da sua própria maneira. Porém, essa divisão por ego, não descaracteriza a mesma essência, os mesmos valores e a mesma disciplina praticada por todos, toda esta zona teve início apenas por orgulho.

Portanto,  Pk/Fr/Add, representam a mesma disciplina, com os mesmos valores e a mesma essência. Nós costumamos adotar a nomenclatura “Parkour” para se referir a prática para facilitar a comunicação (E isso, inclusive é passado durante o curso de formação de instrutores da Parkour Generations, o ADAPT ).

Devidamente contextualizados com os termos, vamos prosseguir.

O Parkour traz na sua essência, influências de várias modalidades diferentes. Possui técnicas ginásticas de fortalecimento, padrões de movimentação parecidos com o atletismo, níveis de desafios encontrados na escalada livre, autodisciplina e concentração das artes marciais, semelhanças indubitáveis do parcours Du combattant e por aí vai. Inclusive os criadores eram praticantes de diversas modalidades diferentes, como mostra o próprio Ciné Parkour de Angel e entrevistas com os criadores.

Basicamente o Parkour utiliza-se de uma série de técnicas e padrões de movimentação aplicadas em conjunto para movimentar-se no ambiente utilizando o próprio corpo como veículo para transpor obstáculos, explorando o mundo de maneira desafiadora e divertida.

Trabalhamos com a ideia de que podemos utilizar nosso corpo de diversas formas diferentes a fim de fortalecê-lo, aprender a controlá-lo, desafiá-lo e dessa maneira sair da zona de conforto, buscando continuamente uma forma de ser e fazer melhor.

Quando falamos da utilização do corpo de diversas maneiras e se tornar melhor com isso, uma boa forma de se orientar é através do trabalho de George Hebérts, o “Methode Naturelle”. Em uma viagem a África ele observou tribos indígenas e como as pessoas nestas tribos tinham corpos fortes, resistentes e úteis para a comunidade em que viviam. Se espantou em observar que apesar de serem extremamente fortes, eles não passavam por nenhuma forma específica de treinamento, não haviam academias e nem nada do tipo. Seu único instrutor era apenas seu dia-a-dia na natureza. Em seu trabalho Hebérts defende que um corpo útil deve ser forte. Útil em uma situação de emergência, útil sendo altruísta, útil sendo autônomo, útil sendo eficiente e capaz... enfim. Daí então vem o principal lema de sua filosofia: “Etre fort per Etre utile” ou, em português “Ser forte para ser útil”. Este se tornou um dos lemas mais fortes dentro do parkour, sendo levados a sério por muitos em seus treinos. Heberts então, através de suas observações dividiu os padrões naturais de movimentos humanos em 10 famílias. São elas:



·         Andar
·         Correr
·         Saltar
·         Escalar
·         Quadrupejar
·         Equilibrar
·         Levantar e carregar cargas
·         Arremessar cargas
·         Se defender
·         Nadar



Esta classificação norteia bastante a prática do parkour, pois como “utilização dos padrões de movimentação” queremos dizer exatamente isto.
Nós corremos, saltamos, escalamos, nos equilibramos, rolamos, rastejamos e utilizamos todo o tipo de movimentação ao nosso alcance para ultrapassar obstáculos e nos tornarmos fortes.

Charles Moreland, da Rochester Pk de Nova York, em uma palestra para a TED fala muito sobre os comodismos contemporâneos. Vivemos hoje numa sociedade acomodada a rotinas. Acordar, sentar pra comer, transitar num carro ou ônibus, trabalhar sentado, sentar pra descansar e assistir televisão ou jogar videogame e deitar pra dormir. Comparando isso as variedades de movimentação idealizadas por Hebérts, quantos destes padrões deixamos de lado tendo em vista as facilidades tecnológicas e ergonômicas da vida moderna?
O Parkour traz a ideia de que somos capazes de sair da zona de conforto imposta pela sociedade em que vivemos atualmente. Com partes remanescentes da filosofia autônoma do Methode Naturrelle, parkour prega uma constante evolução em todos os aspectos do desenvolvimento humano, com o objetivo de se tornar uma pessoa autônoma, independente e livre o suficiente para saber fazer suas escolhas baseadas em valores como respeito, honra e humildade. Apesar de ter citado aqui os termos “liberdade” e os “valores” esses dois temas são deveras complexos, e deixaremos isso para um outro post.

Hoje em dia, o parkour foi difundido no solo de várias nações ao redor do mundo. Obviamente isto fez com que cada cultura imprimisse parte de sua cultura na prática, o que fez com que ela se desenvolvesse de uma forma positiva e negativa ao mesmo tempo, explicarei o porque.
 Se pegarmos Traceurs aleatórios de cada país do mundo e observarmos atentamente a movimentação de cada um, você notará que, apesar de todos estarem praticando a mesma atividade, cada um se expressa de uma forma particularmente única. Essa diferença, na minha humilde opinião é melhor visualizada principalmente na movimentação de Russos, Franceses e Ingleses... cada um pende para uma forma de movimentação única, que eu realmente acredito ser a impressão da própria personalidade cultural dentro da prática. Eu não tenho absolutamente nada científico que sustente essa minha teoria, mas adoraria ver um debate ou uma iniciativa acadêmica abordando este tema. Em todo caso, visto que o parkour se enraizou de forma subjetiva em cada lugar, o desenvolvimento da prática ao passar dos anos também passou a abranger uma imensidão de padrões e formas de se interpretar a atividade. Isso é:
1 – Positivo, pois isso fez com que o Parkour se enriquecesse ainda mais com visões, filosofias e motivações diferentes. Dessa forma cada cultura agregou algo para a atividade e cada pequena adição fez com que o parkour desenvolvesse uma potencialidade maior e maior.
2 – Negativo, pois juntamente a propagação absurda que a prática obteve, veio também a diluição de valores essenciais do Parkour, como respeito ao próprio corpo e importância do fortalecimento e de um treino consciente, valores que em geral podem ser resumidos em “Ser e Durar” (Outro lema do Método Natural adotado pelo Parkour que prega que deve-se sempre treinar pensando em respeitar seu corpo para treinar sempre, afinal, de nada adianta um drop de 6 metros de altura hoje, se amanhã vai estar com dores e nem aguentando andar, que dirá treinar, em todo caso este é um tema que merece uma atenção particular, e trataremos disso num próximo post). Como prova disso temos hoje vários iniciantes querendo treinar parkour só pra aprender a virar mortal, só pra gravar vídeos ou impressionar as outras pessoas, isso não apenas oferece perigo para o próprio praticante como passa a ideia errada do que se trata o parkour. O sempre gostoso Chris Rowatt, da Parkour Generations, fala mais especificamente sobre esse tema aqui.
Enfim, atualmente o parkour é praticado de uma forma bem diferente do que era originalmente, a prática evoluiu e hoje temos uma visão bem ampla da modalidade, que envolve desde interpretações artísticas com performances impressionantes até autodisciplinas regradas focadas em ajudar o próximo e tornar-se melhor.

Conceituar o Parkour atualmente é uma tarefa bem desafiadora, mesmo para os praticantes mais experientes. Ainda não existe uma linha de pensamento que chegue a um consenso sobre o real conceito de Parkour. Por vezes ele é citado como um esporte, arte, disciplina ou filosofia. A falta de estudos aprofundados na área torna a busca pelo real conceito do Parkour extremamente subjetiva. Não é o objetivo deste post o estabelecimento de um conceito predominante. Aqui direi apenas que você pode entender Parkour como quiser, menos como esporte.
Barbanti cita que para uma atividade ser caracterizada como esporte, esta deve acontecer sobre condições específicas. “o esporte é caracterizado por alguma forma de competição que ocorre sob condições formais e organizadas.”. Parkour é na sua essência uma atividade não competitiva, como cita Foucan, em seu livro Find Your Way, David Belle e milhares de outros tracers ao redor do mundo. “Creio que o objetivo principal do Parkour seja nos tornarmos completamente autônomos em nossas vidas.”, “Treinamos para quando encontrarmos um problema, sermos capazes de enfrentá-lo” (citações de David Belle na entrevista “Eu salto de telhado em telhado”). Barbanti cita ainda que “o fenômeno esporte envolve uma atividade física competitiva que é institucionalizada.”. Não existe ainda uma federação internacional que fiscalize a prática do Parkour a nível institucional, e que estabeleça padrões ou regras para a prática da atividade. Então em resumo, seguindo a linha de pensamento de Barbanti, Parkour não é institucionalizado, não acontece sob um conjunto de regras, portanto não há maneira de se haver competição. E já que o Parkour não acontece sob as condições de um esporte, não pode ser considerado um esporte, pelo menos por enquanto.
Portanto meu amiguinho,não, parkour ainda não é um esporte, porém nada impede que venha a se tornar um dia.

Pra finalizar esse post IMENSO, vou deixar aqui uma definição que eu particularmente acho bem completa.

Parkour é uma atividade que consiste na utilização de técnicas corporais como correr, saltar, escalar, rolar e se equilibrar para explorar o ambiente de uma forma desafiadora e divertida. Trata-se do processo de preparo que tem por objetivo aprender a lidar com obstáculos de natureza física (muros, corrimãos, lixeiras, bancos, arvores...) e mental (medo, insegurança, autoestima e etc).

Além de ter lido esse texto e estudar em outras referências também, uma boa forma de entender o que é realmente Parkour é simplesmente praticando. Então se você aí, leu até aqui e ainda não conseguiu entender muito bem, sem problemas, tente começar. Saia um pouco da sua zona de conforto e venha aprender algo novo, o máximo que pode acontecer é você não gostar.

 Poderia ainda escrever por horas aqui até que isto virasse um livro, mas vou parar por aqui. Espero ter contribuído em algo com você que teve a paciência de ler até aqui. Sinta-se a vontade para discordar, debater, criticar e construir conhecimento.

Bons treinos .

PS: Agradecimentos especiais ao Duddu, do Parkour Aracajú e do DCM pela ajuda com o texto.

Atenciosamente:

Um Traceur.

terça-feira, 24 de março de 2015

Diário de um Traceur #2

Mais de um mês depois do primeiro vídeo da série, venho hoje apresentar a vocês a segunda parte deste percurso. No Ddt de hoje contamos com um pouco da espontaneidade, simplicidade e humildade de Rafael "Lilou" Reis, de Tremembé/Taubaté. No depoimento ele fala um pouco de como entende parkour, do que isso significa pra ele e algumas outras questões pertinentes. Sempre interessante parar para ouvir pessoas que não costumam se abrir costumeiramente pra comunidade.
Aproveitem!!


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Diário de um Traceur #1

Querido diário... este é o primeiro vídeo da série "D.d.T" no youtube.
Este primeiro episódio contém uma leve introdução do que é o parkour, um pouco da minha caminhada como praticante e um pouco do que significa praticar parkour pra mim. É basicamente a primeira parte do que espero que seja um documentário muito mais completo com muito mais pessoas, lugares e conteúdo.
Apesar de este ainda não ser o primeiro post oficial do blog. Vale dar uma olhada.

PS: Vídeo longo, pode se sentar, fazer um cocô, pegar um suco, se aconchegar e espero que aproveitem.

Att. Um Traceur.



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Prefácio...

Bom, como este é o meu primeiro post, acho bom contextualizar quem sou e apresentar qual é o objetivo de ter criado um blog.

Meu nome é Pedro Paulo de Almeida Bento Vidal (pra quê tudo isso de nome??), tenho 22 anos, sou formado em Educação Física pela Universidade de Taubaté (UNITAU), meu TCC teve ênfase em Parkour e desenvolvimento motor, pratico parkour desde 2007 realizo trabalhos com parkour desde 2009, me certifiquei como A.D.A.P.T. level 1 em 2013, sou um dos administradores do grupo Parkour Brasil, faço parte de um grupo de pessoas que trabalha com tradução de materiais gringos relacionados ao parkour para a língua portuguesa, atualmente trabalho com instrução de corrida na acessoria Personal Fit Co e tenho orgulho de dizer que dou aulas de parkour hoje em minha cidade representando a Parkour Generations Brasil.
Primeiramente quero dizer que sempre achei a ideia de um blog algo meio carente.
Porque uma pessoa precisaria se expressar escondido por detrás de um teclado? Necessidade de atenção? Dizer coisas escondido no conforto do seu quarto me parece algo bem superficial, bem seguro né? Sem precisar se arriscar e dizer coisas das quais não tem domínio para especialistas que obviamente vão te mostrar o quão imbecil você é. Vejo atualmente uma grande quantidade de pessoas que são verdadeiros pitbulls raivosos por detrás de uma tela, mas verdadeiros chihuahuas assustados pessoalmente. Pessoas arrogantes, pretensiosas e, normalmente, fúteis que não pensam duas vezes antes de dar opiniões convictas sobre assuntos que não dominam e tampouco ofender as outras. É claro, você não corre o risco de tomar uma mordida se sempre latir de dentro do seu portão não é mesmo? Errado!
Estou dizendo tudo isso pois se tem algo que me tira do sério, isso com certeza é arrogância, orgulho e ignorância... e o pior, normalmente essas três coisas sempre caminham juntas. Nos últimos tempos, tenho visto blogs de uma maneira diferente, funcionando demais para promoção de conhecimento, e não apenas para propósitos pessoais de ego ou coisas do tipo, então perdi este preconceito. Por esta razão, resolvi criar este espaço, um lugar onde espero poder compartilhar meus conhecimentos (devidamente fundamentados) sem faltar ao respeito com ninguém e sempre mantendo uma linha de humildade, criando uma abertura para discussões e debates que agreguem conhecimentos e onde ego e orgulho não sejam bem-vindos. Não sou o dono da verdade, e nem pretendo ser.
O Diário de um Traceur não será apenas um blog, ele é um projeto, uma ideia. Será um espaço onde compartilharei reflexões, opiniões, curiosidades, artigos e vídeos pertinentes ao mundo do Parkour e dos meus treinos. (Nota: Traceur/Traceuse = pessoa que pratica de parkour.)
Quem me conhece sabe o quanto eu sou apaixonado por parkour, documentários e pelo ensino. Desde que assisti aos documentários Projeto Pilgrimage, Geração Yamakasi, Jump London e diversos outros que não tem nada a ver com parkour, eu fiquei na esperança de alguém tomasse a iniciativa de fazer algo do tipo aqui no Brasil. Temos traceurs com histórias maravilhosas e exemplos de vida incríveis pertinho da gente, mas continuamos sempre a valorizar mais o estrangeiro do que o nacional. Infelizmente vi poucas iniciativas do tipo no cenário brasileiro e as poucas que vi não chegaram aos pés do que a expectativa que eu criara estava aguardando. A proposta deste blog (que acontecerá paralelamente com os vlogs postados no nosso canal) é justamente de reunir material para que futuramente possamos criar um conteúdo e um conhecimento tão incrível acerca da prática que seja uma fonte de conhecimento e de inspiração tão grande quanto os já existentes, e ainda ajudar a desenvolver o cenário do parkour em cada cidade brasileira que puder e tocar no coração de cada praticante no decorrer deste caminho. 

Hoje eu sei que um objetivo destes não será fácil de se atingir, por incontáveis fatores, mas tenho paciência e fé de que esta iniciativa poderá ajudar muita gente. Não tenho a pretensão de fazer tudo sozinho e espero poder contar com a colaboração de toda a comunidade para isto, sei que dentro deste mundo existem pessoas tão comprometidas e apaixonadas quanto eu, e que vão ajudar como puderem. Vejo atualmente o quanto eu sou pequeno, e o quão minuscula é a minha missão em meio a uma imensidão de idéias e atitudes diferentes dentro da prática, mas pretendo fazer minha parte de formiguinha para que, quando eu me vá, outras pessoas possam continuar da onde eu parei, e este trabalho não seja perdido, e que estas pessoas também continuem mantendo este ciclo vivo, construindo uma corrente interminável fazendo a prática permanecer acesa e completa mesmo daqui 300 ou 500 anos. 

Espero poder contribuir daqui pra frente e construir uma relação aberta o suficiente para com os leitores, para que estes possam vir a tornarem-se contribuintes da iniciativa e participem com humildade e respeito para o desenvolvimento do parkour daqui pra frente.

...e parti rumo ao ponto B.

Att, Um Traceur.